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A caatinga é uma das regiões semi-áridas mais populosas do mundo. O sistema vem sofrendo em Alagoas modificações devido às ações humanas. O ecossistema caatinga está em situação de vulnerabilidade. Com efeito, "os domínios de caatinga" estão presentes em quase todo o Nordeste brasileiro, ou ainda, mais precisamente, na área denominada de Polígono das Secas.

Realmente, a forma de exploração adotada através dos tempos contribuiu fortemente para que o Nordeste se tornasse, hoje, a área mais vulnerável do país à incidência da degradação ambiental: meio ambiente frágil, fundamentado em grande parte sobre um embasamento cristalino, com solos rasos, com amplas zonas tropicais semi-áridas e forte pressão demográfica.

Além disso, a questão econômico-social da grande parcela da população nordestina, residente no semi-árido de dominação da caatinga é, sem dúvida, a causa principal de degradação do ecossistema. O uso dos recursos da flora e da fauna pelas necessidades do homem nordestino é uma constante, já que ele não encontra formas alternativas para o seu sustento.

A lenha e o carvão vegetal, juntos, são a segunda fonte de energia na região, perdendo somente para a eletricidade. Em 1992, a lenha e a estaca destacaram-se como os principais produtos de origem florestal.

A cobertura vegetal está reduzida a menos de 50% da área dos estados e a taxa anual de desmatamento é de aproximadamente meio milhão de hectare.

Por outro lado, o desmatamento e a caça de subsistência são os principais responsáveis pela extinção da maioria dos animais de médio e grande porte nativos do semi-árido. O hábito de consumir animais da fauna aborígine é antigo, vindo desde antes da colonização e, ainda hoje, é grande a importância social da fauna nativa nordestina. As principais fontes de proteína animal das populações sertanejas continuam sendo a caça e a pesca predatórias. Durante as grandes secas periódicas, quando as safras agrícolas são frustradas e os animais domésticos dizimados pela fome e pela sede, a caça desempenha importante papel social na região, por fornecer carne de alto valor biológico às famílias famintas do sertão.

Mesmo com todas essas ameaças, o percentual de áreas protegidas e/ou sob forma de unidades de conservação é insignificante. Embora ocupe 11% do território nacional, apenas 0,45% desta ecorregião encontra-se em unidades de conservação, a maioria destas protegendo hábitats de transição entre caatinga e outros sistemas, como o cerrado e a mata atlântica.

GRACILIANO RAMOS
VIDAS SECAS (1938)

Vidas Secas é a história de uma família de retirantes, que paradoxalmente não chega a constituir propriamente uma história. A dura andança, sob a implacabilidade da seca, de certa forma justifica a inutilidade da comunicação entre os membros da família, o fato de os filhos não apresentarem nome, as dificuldades lingüísticas do pai, Fabiano, a inquietação constante. E também justifica o sacrifício do papagaio, que tinha acompanhado a família, e que veio a se transformar em alimento providencial. Como se não bastassem tais infortúnios, Fabiano vem a ser preso pelo "soldado amarelo", símbolo do autoritarismo local. Ao contrário de Fabiano, que se mostra matuto em tudo, sua mulher, Sinhá Vitória, apresenta sinais de ter vindo de um meio social menos duro. Baleia, a cachorra, consegue sentir e reagir com inteligência superior à média dos animais. Sua "humanização" progressiva acompanha a também progressiva "animalização" dos membros da família. Fabiano tem de sacrificar a cachorra, por suspeitar que ela estivesse padecendo de raiva. Embora se revolte contra as contas do patrão, Fabiano tem de aceitá-las, para não perder o emprego. Seu reencontro com o soldado amarelo, depois, em plena caatinga, faz-lhe reconhecer sua própria superioridade. Acaba perdoando, ensinando ao soldado o caminho de volta. Mas a temida seca enfim está chegando. As árvores se enchem de aves de arribação. Fabiano recomeça a analisar sua vida. Quem lhe dá animo é Sinhá Vitória. Os retirantes deixam a casa da fazenda e retomam o caminho de sempre. No pensamento de Fabiano brilha uma certa esperança, materializada pelas promessas de chegar ao sul do país. Mas a perspectiva que vem do narrador é a da contínua andança, sem definição e sem destino certo.
A secura é a dominante do livro: secas são não só as vidas das personagens e as paisagens que atravessam, mas também a linguagem do livro. As frases são curtas, lacônicas, o vocabulário é mínimo, a própria montagem da narrativa é esquelética, feita de quadros que se reduzem a si mesmos, sem se articular no desenho mais amplo de uma história, pois esta também parece faltar àqueles magros retirantes.

Trechos do Livro Vidas Secas

A caatinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O vôo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.

– Anda, excomungado.

O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário – e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.

Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés.

Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a idéia de abandonar o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores.

Sinhá Vitória esticou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados ao estômago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. Entregou a espingarda a Sinhá Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos. Sinhá Vitória aprovou esse arranjo, lançou de novo a interjeição gutural, designou os juazeiros invisíveis.

E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande.

Ausente do companheiro, a cachorra Baleia tomou a frente do grupo. Arqueada, as costelas à mostra, corria ofegando, a língua fora da boca. E de quando em quando se detinha, esperando as pessoas, que se retardavam.

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 16 ed. São Paulo. Martins, 1967. P. 8-9

Opinião sobre a Caatinga:

"O estudo e a conservação da diversidade biológica da Caatinga é um dos maiores desafios da ciência brasileira", explica Marcelo Tabarelli, professor de Botânica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e diretor do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (CEPAN). "Há vários motivos para isso. A Caatinga é o bioma menos estudado do Brasil, com grande parte do esforço científico concentrado em alguns poucos pontos em torno dos principais pólos urbanos. Também é a região menos protegida, com apenas 2% do seu território coberto por unidades de conservação. Há séculos acompanhamos seu extenso processo de alteração e deterioração ambiental, provocado pelo uso insustentável de seus recursos naturais. Tudo isso leva à rápida perda de espécies únicas, à eliminação de processos ecológicos-chave e à formação de extensos núcleos de desertificação em vários setores da região".

A Caatinga estende-se por 800.000 km2 do nordeste brasileiro, incluindo os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, a ilha de Fernando de Noronha, a maior parte da Paraíba e Pernambuco, o sudeste do Piauí, o oeste de Alagoas e Sergipe, a região norte e central da Bahia, e uma faixa que passa por Minas Gerais seguindo o rio São Francisco juntamente com um enclave no vale seco do rio Jequitinhonha. Quase 30 milhões de pessoas vivem e dependem da biodiversidade dessa "floresta branca" (tradução do termo Caatinga - em Tupi-guarani), que caracteriza bem o aspecto da vegetação na estação seca, quando as folhas caem e apenas os troncos brancos e brilhosos das árvores e arbustos permanecem na paisagem.

Comparada a outras regiões brasileiras, a Caatinga apresenta muitas características meteorológicas extremas: a mais alta radiação solar, baixa nebulosidade, alta temperatura média anual, baixas taxas de umidade relativa, e, sobretudo, precipitações baixas e irregulares, limitadas, na maior parte da área, a um período muito curto no ano. Fenômenos catastróficos são muito freqüentes, tais como secas e cheias, que, sem dúvida alguma, têm modelado a vida animal e vegetal particular da Caatinga.

Assim, as espécies que habitam o bioma tiveram que encontrar maneiras de se adaptar ao ambiente semi-árido. As mais típicas dentre as 932 espécies de plantas existentes na Caatinga são prova dessa adaptação. A suculência é uma das principais características fisiológicas observadas nas plantas da Caatinga, o que lhes permite suportar o período das secas. Órgãos de armazenamento de água são típicos em alguns casos como o do umbuzeiro (Spondias tuberos), das barrigudas (Cavanillesia arborea), das maniçobas (Manihot spp.), do pau-mocó (Luetzelburgia auriculata), do xique-xique (Pilosocereus gounellei), do mandacarú (Cereus jamacaru), dentre outras.

     

Estima-se que a vegetação da Caatinga não tenha se alterado por um período muito longo, como indicam as evidências geológicas. Dessa forma, um acentuado grau de endemismo, ou seja de espécies que só existem lá e em nenhum outro lugar, pode ser observado na flora e em alguns grupos da fauna, como as aves. Em levantamento recente, liderado por José Maria Cardoso da Silva, vice-presidente da Ci-Brasil e co-autor do livro, existem 516 espécies de aves na Caatinga, das quais 469 se reproduzem na região. Entre as espécies que se reproduzem na região, 284 (60,5%) dependem de florestas para sobreviver. \"Somente 14% da superfície da Caatinga são cobertos por florestas, mas essas pequenas áreas ajudam a manter quase dois terços das espécies de aves aí existentes. Este resultado demonstra a importância das florestas da região e é um dado importante para as políticas de conservação do bioma\", explica Silva.

Até a metade do século passado, os mamíferos da Caatinga eram analisados segundo amostras bastante reduzidas, que indicavam uma fauna relativamente pobre, restrita a 80 espécies na última atualização, em 1989. A baixa diversidade e a ausência de adaptações fisiológicas para as condições áridas, levaram os pesquisadores a concluir que a fauna de mamíferos da Caatinga consistiria, em sua maior parte, em um subconjunto da fauna do Cerrado.

Recentes revisões desses levantamentos mostram que a fauna da Caatinga se distingue daquelas das populações de outros ecossistemas. Hoje podemos listar 143 espécies de mamíferos, dentre eles: pelo menos 10 espécies de marsupiais; 64 espécies de morcegos; 34 espécies de roedores; uma espécie de lagomorfa (tapiti); 14 espécies de carnívoros; quatro espécies de Artiodactyla (catetos, queixadas e veados), uma espécie de anta; seis espécies de primatas; nove espécies de edentados (tamanduás, tatus e preguiças). As duas espécies endêmicas, os roedores Kerodon rupestris e Wiedomys pyrrhorhinus, encontram-se hoje amplamente distribuídas na Caatinga. Até o momento também foram registradas 185 espécies de peixes (57% endêmicos) e 154 répteis e anfíbios.

 

\"A identificação de áreas e ações prioritárias é o primeiro passo para a elaboração de uma estratégia regional ou nacional para a conservação da diversidade biológica, pois permite coordenar os esforços e recursos disponíveis para conservar e subsidiar a elaboração de políticas públicas de ordenamento territorial\", explica Inara Leal, professora do Departamento de Botânica da UFPE. \"O processo de seleção de áreas e ações prioritárias é baseado em estudos multidisciplinares e em um processo participativo de tomada de decisão, onde áreas e ações são selecionadas com base no conhecimento de cientistas e de membros dos mais diferentes grupos da sociedade civil\".

De forma mais específica, a conservação da Caatinga é importante para a manutenção dos padrões regionais e globais do clima, da disponibilidade de água potável, de solos agricultáveis e de parte importante da biodiversidade do planeta. Infelizmente, a Caatinga permanece como um dos ecossistemas menos conhecidos na América do Sul do ponto de vista científico. "O resultado é que várias espécies encontradas na Caatinga estão ameaçadas de extinção global, como mostra a lista oficial de espécies ameaçadas do IBAMA, e uma espécie de ave está oficialmente extinta na natureza: a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii). Esses indicadores refletem, de forma inequívoca, a ausência de políticas voltadas para a conservação da biodiversidade da Caatinga e de seus demais recursos naturais\", explica Silva.

Os cientistas identificaram 82 áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade da Caatinga, das quais 27 foram classificadas como áreas de extrema importância biológica. As áreas prioritárias variam bastante em tamanho, desde 235 km2 até 24.077 km2. No total, cobrem cerca de 436.000 km2, ou seja, 59,4% da Caatinga. Hoje existem 16 unidades de conservação federais e 7 estaduais (concentradas na BA e RN) que protegem formações de caatinga e/ou ambientes de transição. Apenas a metade das unidades federais contém exclusivamente formações de caatinga, sendo metade delas de uso sustentável e metade de proteção integral. A grande maioria dessas unidades enfrenta sérias ameaças como: situação fundiária não resolvida, falta de verba para funcionamento e manutenção, funcionamento e implementação insatisfatórios para atingir os objetivos da unidade, caça tradicional para subsistência e esportiva, desmatamento e retirada de lenha e fogo.

"Faltava uma visão do todo, da ecologia da Caatinga. Esta publicação preenche a lacuna, mostrando várias peças do quebra-cabeça ecológico deste bioma tão especial. Ainda precisamos ampliar muito a pesquisa na Caatinga, em número e abrangência, mas informações como as que são apresentadas neste livro são essenciais para que possamos planejar e implementar ações concretas de conservação\", conclui Agnes Velloso, Gerente do Programa Caatinga da TNC. Os autores do livro esperam que ele facilite a obtenção de apoio científico, político e financeiro para fazer frente a todos os desafios da conservação da Caatinga.