Eduardo Cândido
José só fazia
o que não queria fazer. Em diversas situações da vida, José via-se sempre
obrigado a fazer o que não queria, mesmo reclamando. A princípio, seus
protestos soavam veementemente, porém, afrouxavam diante do menor argumento
contrário.
Maria, sua
irmã, criatura de natureza fria e impenetrável, porém misteriosamente
benquista na comunidade em razão de suas boas informações sobre a vida
alheia, dava-lhe todos os dias a mesma ordem:
— Coloca o
lixo pra fora.
E José
respondia:
— Eu sempre
faço isso. Há trinta anos venho colocando o lixo na rua. Todos os dias!
Hoje, eu não quero.
— Tu? —
respondia a irmã, friamente — Tu sempre foste assim. Coloca o lixo pra fora.
José,
resmungando, levava o saco de lixo para o depósito na rua, o qual era
recolhido todos os dias pelo caminhão da prefeitura, ao anoitecer, sendo
posteriormente transportado e abandonado num aterro sanitário, nos confins
da cidade — o sepulcro de todos os detritos e sujeiras.
Depois, José
atravessava o jardim e retornava para a casa, e passava o resto do dia vendo
os programas de auditório e as novelinhas da televisão.
Os anos
passaram, e, ao completar cinqüenta anos de idade, José continuava fazendo
sempre o que não queria fazer. Num certo dia, ele teve uma experiência
terrível.
Quando estava
em casa, sentado no sofá vendo uma novela mexicana na televisão, logo depois
de colocar o saco de lixo na rua, José percebeu que estava sem a mão
direita. Horrorizado, gritou para a irmã:
— Meu Deus! A
minha mão?! Onde está a minha mão?
E a irmã
respondeu, friamente:
— Tu sempre
foste assim.
— Não!! —
gritou José — Será possível?! Não faz nem um minuto que segurei o saco de
lixo com a mão direita. Eu segurei com a mão que estava aqui!
— Tu sempre
foste assim. — repetiu a irmã, friamente, e seu olhar revelava que ela
estava achando que José havia enlouquecido.
José observou
o toco do braço. Não tinha cicatrizes, nem sentia dor. A pele estava lisa, e
até mesmo nasciam alguns pelinhos no local. Simplesmente, a mão não estava
lá. E José achou que estava ficando doido, e que sempre fora um maneta.
A conversa
foi encerrada.
No dia
seguinte, depois de colocar o saco de lixo na rua, José retornou à casa
mancando pelo jardim. Parou no meio do caminho e, olhando para trás, tentou
descobrir o quê estava incomodando-o.
Ao entrar em
casa, José ficou espantado quando verificou, ao descalçar o único chinelo,
que tinha somente um pé. Caiu sentado no sofá, nauseado pelo horror,
erguendo a perna sem o pé.
— Veja... ui!
— balbuciou José — onde está o meu pé esquerdo?
— Tu sempre
foste assim. — respondeu a irmã, friamente.
— Não! —
gritou José — Por Deus, não! Olhe, criatura, olhe! Eu tenho a certeza de que
sempre tive os dois pés!
— Tu sempre
foste assim. — respondeu a irmã, friamente.
E a conversa
foi encerrada.
José,
mancando e angustiado, percorreu o caminho que costumava fazer para colocar
o saco de lixo na rua, procurando o seu pé. Mas não encontrou. Resolveu,
então, que o melhor a fazer era dormir, pois começava a desconfiar que
estava ficando louco de verdade. Porém, antes de se deitar, José observou no
armário que todos os seus sapatos tinham os dois pés, e que as solas de
todos estavam igualmente gastas. “Eu sabia! Eu sabia...” — pensou.
E José,
debaixo das cobertas, meditou pachorrentamente sobre o misterioso aleijão,
levando o seu espírito — afeito às ninharias sentimentais das novelinhas —
para as mais altas abstrações da metafísica. E vagabundeou pelos fragmentos
da filosofia até cair no mais profundo sono...
No dia
seguinte, Maria, sua irmã, ordenou:
— Coloca o
lixo pra fora.
E José
respondeu:
— Não, Maria.
Eu não quero. Eu não vou, e ponto final.
— É mesmo?
Coloca o lixo pra fora. — repetiu Maria.
— Eu não
quero. Somente hoje, por favor... — suplicou José.
— Tu sempre
foste assim... Coloca o lixo pra fora. — sentenciou a irmã, friamente.
E José,
resmungando queixumes, mancando e maneta, levou o saco de lixo para a rua.
Ao colocá-lo no interior do latão, o seu braço esquerdo suavemente
desprendeu-se do ombro e caiu.

— Meu Deus do
Céu! Jesus, me acuda! — José berrou desesperado, batendo o toquinho do braço
direito na cabeça.
— O que foi?
— perguntou um vizinho que passava.
— Oh! Veja! O
meu braço caiu! Está aqui na lixeira!
— Mas José...
— riu-se o vizinho, coçando o nariz com o dedo — tu sempre foste assim...
— Como? Olha
aqui! Veja... — e José começou a choramingar.
— Acalme-se,
José... acalme-se. — disse o vizinho apaziguador — Tu és muito nervoso. É
melhor voltar para casa e relaxar. Que tal ver um filme na televisão?
— É... é
melhor ir descansar — disse José. — Tens razão... ando meio nervoso
ultimamente. Eh, eh! Tu sabes como é. Eu sou forçado a fazer sempre as
mesmas coisas, e fico muito cansado.
— Pois é,
José... — respondeu o vizinho, — infelizmente, não podemos fazer o que
desejamos a toda a hora. A vida nos impõe certas obrigações rotineiras, e
não há meio de escapar.
— Oh! Sim,
sim — concordou José, abruptamente — é o que eu sempre digo.
Despediram-se.
José retornou
à casa e, antes de entrar, sentiu um pouquinho de prazer imaginando a cara
de espanto da irmã, quando ela o visse sem um braço. “Eu não estou louco. Eu
vi o meu braço cair dentro do latão de lixo. Ali está!” — pensou José.
José entrou
na sala de supetão, e ficou parado ao lado da porta. A irmã desviou os olhos
do televisor, e observou José por um instantinho, sem alterar um milímetro
do fossilizado semblante, e voltou os olhos à novela...
— Ei! Tu não
percebes que estou diferente? — perguntou José.
A irmã
retornou a observá-lo, em muda interrogação.
— Não estou
diferente? — perguntou o vacilante José.
— Tu? —
respondeu a irmã, friamente — Tu sempre foste assim.
E a conversa
foi encerrada.
Os dias
passaram, e José sentia-se cada vez mais infeliz e confuso. Toda vez que
José depositava o saco de lixo fora de casa, perdia um pedaço do seu corpo,
que caía dentro da lata de lixo. Ele começou perdendo a mão direita; depois,
o pé esquerdo; no outro dia foi o braço esquerdo, depois o braço direito, as
duas pernas, e assim sucessivamente, pedaço por pedaço, até o miserável dia
em que se foi o pênis, seguido pelos testículos. Nessa fase, José continuava
levando o lixo para fora, segurando o saco entre os dentes, e andava pelos
corredores e pelo jardim batendo com as nádegas no chão. Parecia um verme
ereto e cabeludo. Entretanto, José aceitava tais perdas e estorvos com
imponderada resignação, pois já estava ficando acostumado. Mas ele não se
conformava com o fato de ninguém perceber a sua progressiva diminuição.
Todos os dias, a sua irmã repetia: “Tu sempre foste assim”.
Quando perdeu
o tronco e o pescoço, restando somente a cabeça em cima da cadeira da
cozinha, José aporrinhou-se:
— Maria,
minha irmã, tu não percebes que estou doente? — perguntou, baixinho, pois
era muito difícil articular as palavras somente com a boca, sem os pulmões e
as cordas vocais. — Ora, mas que cazzo, hem?!
— Tu sempre
foste assim — respondeu a irmã, friamente.
Ambos estavam
jantando, e Maria metia os bocados de feijão com arroz na boca de José com
uma colher de pau. José mastigava, engolia, e a comida escorregava da cabeça
para o chão, para debaixo da cadeira.
Com a maior
calma e naturalidade do mundo, Maria terminou de comer e recolheu do chão a
comida mastigada por José, metendo tudo num saco plástico. Maria levantou a
pobre cabeça do irmão pelos cabelos, e prendeu o saco de lixo na orelha
esquerda de José. E Maria, colocando a cabeça no chão do quintal, ordenou:
— Coloca o
lixo pra fora.
José, fazendo
movimentos regulares com o queixo e o nariz, arrastou com a cabeça o saco de
lixo para fora de casa. Quando chegou na rua, José ficou arquitetando um
plano para desatar o saco da orelha e depositá-lo na lata de lixo.
Nesse
momento, chegou o caminhão da prefeitura.
José,
alvoroçado e aflito, começou a implorar o auxílio do lixeiro:
— Socorro!
Socorro!
Mas o lixeiro
não escutava, pois a voz de José ficava encoberta pelo barulho do motor do
velho Mercedes. E o lixeiro, agarrando o saco de lixo junto com a cabeça de
José, arremessou tudo para dentro das trevas do caminhão.