
Seca castiga o Sertão e mata animais
Burocracia deixa de fora da
Operação Pipa milhares de alagoanos sertanejos que estão sem água para beber
Deraldo Francisco
Repórter Especial-O Jornal –05.03.2006

Pelo menos 38 municípios do Semi-Árido alagoano estão sofrendo com a seca
que se instalou na região mais cedo, em relação ao ano passado. No entanto,
nem todos receberão ajuda do governo federal na Operação Pipa, que deve
começar ainda esta semana. A burocracia exigida pelo Ministério da
Integração Nacional vai deixar muitos sertanejos alagoanos com sede.
Milhares de pessoas estão sem água para beber e muitas já deixaram de tomar
banho. O gado está morrendo, e a palma, que resiste a altas temperaturas,
está secando em alguns povoados de São José da Tapera. No centro da cidade
já se chegou aos 44 graus. Em algumas escolas, devido à falta d´água, as
aulas foram suspensas. Em outros povoados, está havendo roubo da pouca água
acumulada em cisternas. Para lavar roupas e até tomar banho, algumas pessoas
estão usando a água dos barreiros que antes eram exclusivos do gado. Às
margens das rodovias que “cortam” o Sertão, as carcaças de bois, vacas e
cavalos já podem ser vistas. Em Tapera, uma medida paliativa está
minimizando os problemas pela falta de água.
A miséria em primeiro lugar
Apontada pela ONU como a cidade
mais pobre do Brasil, Tapera é um retrato fiel do Sertão
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José
Bezerra perdeu seis filhos por causa da seca
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Maria deu à luz sob o olhar insuspeito de uma
vaca e um jegue - figurante sempre presente nessas ocasiões há
quase dois mil anos. José acompanhava a cena de perto, amparado
pelas paredes de barro e um cigarro de palha. A fumaça
esbranquiçada fugia pela porta e fundia-se à paisagem queimada
de sol. A pele do bebê à lavoura, que morreu ainda no pé por
carência d'água. Mal presságio. Ao contrário da outra criança -
do outro José com a outra Maria - não recebeu reis, muito menos
presentes. Contudo, para ambos o destino deu-se logo a conhecer.
Os anos se passaram e ela cismou em ficar do
mesmo tamanho. Talvez por causa da água e da comida. Ou da falta
de ambos. Certo mesmo é que adoeceu. O pai, desesperado, correu
de um lado para o outro e levou-a para se tratar. Diarréia,
disenteria, olhar longo, profundo, perdido. Os doutores fizeram
o que podiam e mandaram-na de volta para casa. Naquela tarde,
rastejou pelo chão da sala, agonizando. Maria avisou ao marido
que a criança estava indo embora. Mas sabiam que de nada
adiantaria, pois há tempos a fome vinha comendo-a por dentro.
Então, José, resignado, foi à cidade fazer a única coisa que
estava ao seu alcance: pedir uma caixão emprestado. Quando
voltou, a filha já estava morta.
Essa cena se repetiria mais cinco vezes na vida
da família Bezerra. Assim como eles, muitos Josés e muitas
Marias têm enterrado a fome de seus filhos pelo nordeste
brasileiro, castigado com uma das piores secas das últimas
décadas. Essa história tem sido uma constante nos últimos anos
no município de São José da Tapera, sertão das Alagoas.
No ano passado, a Organização das Nações Unidas
divulgou o ranking do Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH,
de quase cinco mil municípios do país. São José aparece em
último lugar, com uma taxa de mortalidade infantil de 147,94
mortes por 1000 nascidos. Para se ter uma idéia do que é isso,
Angola, país há quase 25 anos em guerra civil, coberto por nove
milhões de minas terrestres e que foi recentemente considerado
pela ONU o pior lugar para uma criança viver em todo o mundo,
apresenta uma taxa de 170 para mil.
Quem visita o centro urbano de São José da Tapera
não imagina que essa é uma das cidades mais pobres do Brasil.
Banco, farmácias, mercados, feira livre. Uma bela praça, parque
infantil, lanchonete. Porém, lá vivem menos de 20% dos quase 30
mil moradores. O resto está espalhado em aproximadamente 60
povoados, neste que é o segundo maior município do estado. A
família Bezerra mora em um desses vilarejos, Furnas. Na verdade,
um amontoado de pequenos sítios onde dezenas de casas de taipa e
madeira salpicam a paisagem, habitadas por alguns barbeiros e
muitas pessoas.
Falta água, falta emprego
O único braço de água que atravessa Furnas e
região chama-se Riacho Grande: largo, sinuoso, longo... e seco.
Assim como em todo o sertão, um rio temporário que existe quando
há chuvas, ou seja, quase nunca. A maioria das comunidades não
dispõe de poços artesianos e são obrigadas a cavar cacimbas no
leito seco para conseguir alguma coisa. Por azar, devido a
depósitos minerais, a água, barrenta, sai salobra da terra.
Até pouco tempo atrás, essa água era utilizada
para beber, lavar roupa, fazer comida e alimentar o gado.
Problemas de saúde era o que não faltava, principalmente entre
as crianças, com o organismo já fraco devido à fome. Em esquema
de emergência, o Exército junto às autoridades locais têm levado
caminhões-pipa aos locais mais atingidos pela seca. No Estado de
Pernambuco, trens partem carregados de água em direção ao
interior para tentar suavizar a situação.
A Visão Mundial, entidade internacional de
assistência, construiu 35 cisternas na região, reservatórios de
alvenaria com capacidade para 10 mil litros. Várias famílias têm
então que se virar com essa quantidade por meses a fio até que o
próximo carregamento chegue. Teodoro Félix da Costa e sua mulher
Maria Rita foram os primeiros a receber a cisterna em sua
comunidade. "Eu buscava água salgada até três meses atrás.
Criança já chegou a morrer por causa dela". E ele sabe de perto
o que é isso, uma vez que perdeu quatro filhos - todos com menos
de um ano de idade.
Porém, essa água não é suficiente para a
agricultura, quase que de forma exclusiva dedicada à
subsistência. O céu ainda é a única fonte de irrigação para essa
gente. Em junho, chamado por lá de "mês de São João", choveu um
pouco, esverdeando a paisagem. Plantações foram feitas,
esperando que a água continuasse. Infelizmente, não continuou e
boa parte da colheita ficou comprometida. Os produtos mais
cultivados são o feijão e o milho. Cena comum são os milharais
que permaneceram baixinhos, espigas nanicas ainda em fase de
crescimento. Quem conseguiu tirar algo do roçado, por pouco que
seja, está satisfeito. Há famílias que perderam tudo e agora
esperam a divina providência ou a ajuda do governo.
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Maria
Aparecida com os filhos desnutridos |
Maria Aparecida Corrêa e seu marido Adeído são um
exemplo. Os dois e mais sete filhos dividem uma casa de um só
cômodo com uma só cama, feita de pau-a-pique. A cozinha se
resume a uns tijolos no lado de fora da casa. E nem precisaria
de muito mais, pois o feijão, dieta única, é pouco. Quase todas
as famílias comem feijão no almoço, feijão no jantar e caldo de
feijão no café da manhã. Quando conseguem, colocam uma carne e
uma farinha. Mas, em alguns lares como o de Maria Aparecida,
mesmo o feijão três vezes por dia é raridade. Um bom indicador
são os filhos. O menor, de um ano, está com cinco quilos de
peso. A desnutrição também ataca a outra filha do casal, com
dois anos, olhos fundos, cabeça grande, bracinhos finos.
Com o roçado perdido, Adeído está atrás de
serviço. Emprego não há, tanto no comércio do centro urbano
quanto na prefeitura, que já emprega muito mais gente do que
poderia. De vez em quando, abre uma vaga para trabalhar em
alguma fazenda, como a Jequiá, cortando palma (uma espécie de
cacto que serve de ração para o gado), fazendo cerca,
processando palha de milho. "Só que eles pagam três contos secos
(R$ 3,00) por um dia inteiro de serviço e os patrões não dão nem
a água para beber. E no final do dia, você fica tossindo pó",
reclama José Bezerra. Adeído estava disposto e bem que tentou,
mas ainda não havia conseguido vaga para ganhar os três contos
secos.
Como em "Morte e Vida Severina", de João Cabral
de Mello Neto, há muitas Marias. Boa parte, afilhadas também de
Maria, também mulher de José, porém com um filho famoso que não
morreu de desnutrição. O marido da irmã de Maria Aparecida,
Maria de Lurdes, está trabalhando em um desses bicos. Enquanto
Antônio passa o dia fora, ela fica em casa cuidando dos oito
filhos. Bem, eram nove até meados de agosto quando o caçula
morreu. Magro, com as costelas tentando sair para fora da pele.
Talvez se o pseudo-emprego tivesse chegado antes a história
teria sido diferente.
A história também poderia ter sido diferente se
as cestas básicas distribuídas pelo governo federal não tivessem
sofrido um atraso em todo o país. Da mesma forma, a verba
destinada às frentes de trabalho não aparecem em São José da
Tapera há muito tempo. De acordo com Antônio Benedito Júlio,
dono de um sítio e um dos beneficiados, o valor do auxílio caiu
de R$ 80,00/mês para R$ 65,00/mês- metade um salário mínimo.
Famílias com 10, 12 pessoas que conseguiram ter apenas um membro
inscrito têm que fazer mágica e se virar com isso. De acordo com
a prefeitura, em 1983 havia 11 mil nas frentes de trabalho.
Hoje, esse número foi reduzido para 2 mil. Os moradores da zona
rural arranjaram um apelido para essa ajuda econômica, "magnu,
pois com ele e você fica magro ou você fica nu".
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Maria de
Lurdes: a hipertensão é comum na região |
Agentes de saúde
Outro problema que Maria de Lurdes enfrenta é o
coração. "O médico do posto de saúde me disse que, se eu tiver
outro filho, eu posso morrer." Problemas cardíacos ocasionados
por má alimentação, além de estresse e hipertensão são
freqüentes. E de quebra, a doença de Chagas que muitos possuem e
nem sabem. Barbeiros costumam sair meio dia das tocas,
principalmente em dias quentes, e transmitir o Trypanosoma
Cruzi. Lurdes espera na fila para ir a Maceió e fazer a cirurgia
em um hospital do Sistema Único de Saúde.
Contudo, a situação da saúde nessa região do
sertão nordestino conheceu uma melhora considerável nos últimos
cinco anos, desde a implantação do Agente Comunitário de Saúde.
O programa, com verba de Brasília e sem nenhum vínculo político,
recruta moradores locais, que recebem treinamento, e visitam
regularmente todas as famílias. As crianças são atendidas desde
o pré-natal até a adolescência, com vacinação completa e algum
controle de alimentação. A multimistura, um complemento
alimentar com proteínas, vitaminas, cálcio e sais minerais tem
sido distribuído à população para tratar de casos de
desnutrição.
Os resultados são animadores. De acordo com Ivete
de Barros, professora aposentada e, hoje, agente de saúde, a
mortalidade infantil diminuiu desde o começo das visitas. Ainda
de acordo com ela, vários vilarejos já não possuem mais casos de
desnutrição crônica - aquela que leva à morte. Crianças são
pesadas regularmente, tratadas com complemento alimentar e
encaminhadas para o posto de saúde quando necessário. O agente
trabalha em conjunto com os médicos do Plano de Saúde Federal e
com a Pastoral da Criança da Igreja Católica. Trabalham em
cooperação às esferas federal, estadual e municipal - fato raro
em se tratando da República Federativa do Brasil. Nos últimos
quatro anos, a mortalidade infantil caiu 30% nos municípios mais
pobres do país. A prefeita de São José da Tapera, Edineuza
Ricardo, garante que a taxa de 148 para mil, indicada pela ONU,
despencou e agora fechou 1998 em 100 para mil. Mesmo assim, bem
acima dos 42 da média nacional.
O agente de saúde acaba sendo também um agente de
cidadania. Ele entra na vida de cada família, estabelece uma
relação de amizade e confiança. Conscientiza a população de seus
direitos e deveres, de que pode cobrar soluções ou ir em busca
dessas soluções. Noções de saneamento básico, como filtrar ou
ferver a água antes de utilizá-la, ou de planejamento familiar
vêm se tornando a cada dia parte integrante do universo dessas
pessoas.
Crescei e multiplicai
O planejamento é quase inexistente. Encontra-se
famílias com 11, 12 filhos. A própria Ivete teve 15. O problema
é que o crescimento do número de bocas não vem acompanhado de um
crescimento da renda da casa, e sim de um aumento da fome.
Boa parte das mulheres de São José da Tapera já
conhecem métodos contraceptivos, orientadas médicas e
enfermeiras. Mas a desinformação e o preconceito ainda são
grandes, desde casos menores, como a que engravidou por achar
que a pílula anticoncepcional deveria ser tomada dia sim, dia
não, até a recusa dos maridos em usar preservativos.
Devido à fé do sertanejo, a dicotomia religião
versus controle da natalidade transforma-se em um desafio a
qualquer projeto que tente mudar o cenário. Por estarem
atreladas à Pastoral da Criança, algumas agentes de saúde não
estão autorizadas a ensinar outros métodos além do da tabelinha,
endossada pelo Vaticano. O padre da cidade, durante o sermão na
missa, condena o uso de preservativos, pílula anticoncepcional e
a vasectomia ou a ligadura de trompas.
Mesmo assim, muitas mulheres passam por cima do
pecado e, arriscando a salvação eterna, querem passar pela
operação de esterilização.
Jeíusa Pereira dos Santos é uma delas. Tem 29
anos de idade. Mas bem que poderia ter 45, visto as marcas de um
tempo que foi mais severo com ela do que com outras pessoas. Tem
também oito filhos (um deles desnutrido), outro no ventre - que
deve ter nascido em setembro - e um par de gêmeos que morreu.
Porém, seu marido é contra e a ameaça para que ela não leve a
idéia da cirurgia em frente.
Às vezes ele consegue um bico de apanhar feno em
alguma fazenda do Sítio Antas, povoado em que moram. Porém, a
renda da família vem basicamente da fabricação e venda de
vassouras de palha de coco aricuri. Andam vários quilômetros sob
o sol escaldante para buscar a matéria-prima na mata. Dedicam
uma semana inteira na produção de 100 unidades, que depois
vendem por R$ 15,00.
A família de Jeíusa é uma das mais pobres de toda
São José da Tapera. Durante três anos, viveram em um barraco
feito com palha e madeira. Pequeno, com aproximadamente dez
metros quadrados, com uma cama de palha que servia de descanso
para todo mundo. Quando aparecia uma chuva, motivo de alegria
para todo o sertão, era um sofrimento. "Ela entrava por toda a
parte e caía cima de mim, dos meninos", lembra-se com água nos
olhos.
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Jeíusa e o
marido: álcool como válvula de escape |
Por causa da situação de sua família e do
sentimento de incapacidade diante da dor dos filhos, o marido de
Jeíusa entrega-se à bebida. Sem ter o que fazer, abraça a
garrafa de cachaça, sentado embaixo de uma árvore. Quando o
álcool sobe à cabeça, briga com a mulher e os filhos. Já chegou
a tentar derrubar a casa que a prefeitura construiu para eles em
substituição da palhoça. No dia em que esta reportagem visitou a
família, encontrou um de seus filhos desmaiado em meio a moscas,
estirado no chão da casa. Ele havia pedido o que o pai estava
tomando e entornou pinga. Com estômago vazio.
Como Jeíusa, a maioria da população tem título de
eleitor e carteira de identidade - exatamente nessa ordem de
importância. A região nordeste é famosa por ter seu povo
oprimido e explorado por coronéis, grandes latifundiários que
utilizam mão-de-obra quase escrava em seus domínios, mantendo
através da violência seu poder e o status quo. Até pouco tempo
atrás, São José da Tapera e cidades vizinhas eram dominadas pela
família Maia. A população reluta ainda em falar abertamente no
assunto, mas o curral eleitoral estava estampado em cada
esquina, nos muros pichados com propaganda. Do tio ao primo, da
cunhada ao genro. A situação começou a mudar de uns tempos para
cá quando Ênio Ricado Gomes, marido da atual prefeita e sem
vínculo com os Maia, venceu as eleições municipais. Pouco tempo
depois, foi assassinado misteriosamente. Edineuza então resolveu
se candidatar para dar continuidade ao trabalho do marido e
venceu.
E o mais interessante é que muito poucos sabem
escrever além do próprio nome, lembrado apenas nos dias de
votação, e de ler o nome dos candidatos, estampado nas urnas
eletrônicas. O analfabetismo é grande entre os adultos.
A casa de Jeíusa não tem um móvel sequer. "Não
quero mesa, não quero cama, quero trabalho." Apesar de haver
acomodados que estão a espera da comida cair do céu, a maioria
das pessoas de todo o sertão quer emprego e principalmente quer
poder trabalhar na sua roça, cultivar a sua terra.
Ajuda do Velho Chico
Alguns pedem indústrias na região. Algo difícil,
haja visto que, apesar da mão-de-obra barata e de possíveis
subsídios e facilidade dos governos, a região possui baixo poder
aquisitivo. A inexistência de um mercado consumidor e a
distância até os grandes centros urbanos é um balde de água fria
nos planos de um possível investidor. A indústria mais próxima é
ligada às plantações de fumo da região de Arapiraca (AL), cidade
já tradicional nesse ramo.
A solução para São José da Tapera parece ser a
agricultura irrigável. As condições de clima e solo do
semi-árido brasileiro são ideais principalmente para o plantio
de frutas. As altas temperaturas e o sol o ano inteiro
proporcionam o surgimento de frutas bem mais doces do que as
produzidas no Centro-Sul.
E não está se falando apenas de frutas típicas da
região, como umbu, cajá, cacau, caju. Manga, melancia, acerola,
maracujá, melão, laranja, uva. Os vinhos produzidos no Nordeste
já começam a rivalizar em qualidade com os das parreiras
gaúchas. Também no sertão, em Juazeiro (BA), o tomate é
cultivado pela empresa Cica para a produção de popa, molhos e
catchup devido às boas condições de plantio. Boa parte da
produção é exportada, gerando empregos e divisas.
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O rio São
Francisco na altura da cidade de Pão de Açúcar |
Pode-se dizer: "mas Juazeiro está às margens do
São Franscisco, um dos maiores rios brasileiros". Acontece que
São José da Tapera fica a apenas 20 quilômetros do Velho Chico,
em um trecho em que ele tem 300 metros de largura.
A contradição, de tão grande, parece surreal.
Enquanto as plantações secam, o gado padece de sede e crianças
morrem desidratadas, a poucos minutos dali na cidade de Pão de
Açúcar, turistas de vários lugares brincam e se divertem em uma
praia natural na beira do rio. É desse trecho que a água é
captada e enviada por tubos para os centros urbanos de
municípios da região. E é nesse trecho que os caminhões-pipa
abastecem as caçambas para distribuir água aos povoados
carentes. Esse vai e vem é necessário, porém paliativo.
"O político acha bom a seca, pois enche um
caminhão de água e sai ganhando voto", afirma José Vinícius
Rodrigues, presidente da Associação Comunitária dos Moradores do
Sítio Furnas. "Só o dinheiro que o governo gasta com caminhões
dava para irrigar esse sertão", desabafa José Bezerra.
Bem, exageros a parte, José não está muito longe
da verdade. O projeto para a transposição das águas do São
Francisco, que beneficiaria milhões de nordestinos, custaria
aproximadamente R$ 700 milhões aos cofres públicos. Uma ninharia
levando em conta seu custo - benefício. Captando apenas 3% da
água da Barragem de Sobradinho - a maior do país -, o projeto
prevê a construção de canais artificiais para abastecer os rios
temporários que correm fantasmas pelo sertão além de diques e
açudes.
O projeto geraria empregos e criaria estruturas
para a região se desenvolver por conta própria, sem depender do
assistencialismo do Sul-Sudeste ou das esmolas dos coronéis do
Nordeste. E seria uma bela facada nas costas da indústria da
seca, vide como alguns políticos chiam ao se mencionar a
transposição.
A solução para São José está mais próxima ainda,
uma vez que 20 quilômetros de tubulação não são muita coisa. A
vizinha Pão de Açúcar já planta melões irrigados. E o mesmo se
aplicaria às cidades vizinhas que vivem a mesma condição
surreal. A prefeitura tem um projeto de desviar água de uma
adutora já existente para o vilarejo de Antas para tentar o
plantio irrigado de tomate e quiabo. Custaria a gigantesca cifra
de R$ 8 mil.
De acordo com José Carlos Libânio, um dos
responsáveis pela divulgação do ranking do IDH brasileiro, uma
nova listagem depende do censo do IBGE, que será realizado no
país no ano que vem. Talvez, até lá, São José da Tapera já tenha
perdido o posto do lugar mais pobre do país. Ou talvez Tapera
nunca tenha sido mesmo o local mais pobre do país e sim alguma
cidadezinha escondida nas areias do sertão. É quase impossível
quantificar a dor e o abandono.
Contudo, a triste colocação serve para trazer à
luz do sol a miséria escondida nas sombras do sertão nordestino.
As histórias dos sofrimentos de Josés e Marias vivificam o
problema, transformam números, gráficos e dados estatísticos em
rostos, sonhos e lágrimas. Traduz a distante expressão
"mortalidade infantil", na forma dos cinco filhos de Maria
Bezerra, dos gêmeos de Jeíusa, dos quatro de Maria Rita, do
caçula de Maria de Lurdes...
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Filhos de
Jeíusa no povoado de Antas |
O Índice de Desenvolvimento Humano
Criado em 1960, o IDH é uma espécie de termômetro
usado pelas Nações Unidas para avaliar as condições de vida em
todos os países membros da organização. Em um ranking, recebem
notas de zero a 1 de acordo com o seu grau de desenvolvimento em
três áreas: educação, renda per capita e expectativa de vida. É
importante ressaltar que o índice não cria uma hierarquia entre
modos de viver diferentes, mas classifica países e cidades de
acordo com a qualidade de vida que oferecem aos seus habitantes.
O Brasil é o 79º da lista, em posição considerada
de médio desenvolvimento. A primeira posição fica com o Canadá.
Em comparação com as últimas quatro décadas, o índice aponta uma
melhoria na qualidade de vida do brasileiro, devido
principalmente à alfabetização e à redução da mortalidade
infantil. O Nordeste é um dos lugares onde essa redução foi mais
marcante.
Um levantamento divulgado no ano passado, aponta
uma lista das cidades brasileiras utilizando-se o mesmo método
do ranking internacional. São José da Tapera aparece em último
lugar, com renda familiar per capita de 0,19 salário mínimo. Em
contrapartida, Feliz, no Rio Grande do Sul, foi considerada a
melhor cidade do país, com 99,6% de suas moradias duráveis e uma
esperança de vida em 72,59 anos.
São José da Tapera, Setembro de 1999
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carro de bois |
carro de bois
buscando água |
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